Governança e Finanças Ambientais31 de agosto de 2026

Cali Fund: como a repartição de benefícios genéticos pode chegar às comunidades de origem

Cali Fund: como a repartição de benefícios genéticos pode chegar às comunidades de origem

Em novembro de 2025, nove meses após seu lançamento oficial, o Fundo Cali recebeu seu primeiro aporte: mil dólares transferidos por uma pequena startup britânica de biotecnologia. O secretariado da Convenção sobre Diversidade Biológica tratou a contribuição como um gesto simbólico de incentivo à participação do setor privado. O valor, no entanto, ajuda a dimensionar o desafio que está pela frente: o potencial anual estimado para o mecanismo é de cerca de um bilhão de dólares.

Criado durante a COP16, em Cali, na Colômbia, o fundo funciona como o braço financeiro voltado à repartição de benefícios pelo uso comercial de informações genéticas digitais obtidas da natureza, sobretudo em ecossistemas do Sul Global. A criação do mecanismo responde a uma questão que acompanha as negociações internacionais sobre biodiversidade há anos: como garantir que os benefícios gerados pelo uso desses recursos também alcancem os países e territórios de onde eles se originam.

Setores como o farmacêutico, o cosmético e o agroquímico desenvolveram produtos de alto valor a partir de sequências genéticas mapeadas em florestas e savanas. Durante muito tempo, porém, os países de origem desses recursos não participaram proporcionalmente dos ganhos gerados por sua utilização comercial. O avanço das tecnologias de sequenciamento e o crescimento das bases de dados genéticos ampliaram ainda mais essa discussão.

Pelas regras estabelecidas para o fundo, empresas que utilizam comercialmente essas informações devem contribuir com uma porcentagem de suas receitas para apoiar a conservação da biodiversidade. A adesão corporativa é voluntária, o que faz da participação do setor privado um dos principais fatores para o alcance do mecanismo. Pelo menos metade do montante arrecadado deverá ser repassada a povos indígenas e comunidades locais. O restante será destinado ao cumprimento das metas do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal em países em desenvolvimento.

O anúncio da adesão da Prozomix Limited, durante a COP30, em fevereiro de 2026, marcou a entrada da primeira empresa de biotecnologia no arranjo. A participação aproxima o mecanismo de um dos setores diretamente envolvidos no uso comercial dessas informações e representa um primeiro avanço na construção dessa relação com o mercado.

O volume atual de contribuições, porém, ainda está muito distante da escala financeira projetada para o Fundo Cali. Para que o mecanismo cumpra seu papel, será necessário ampliar a adesão das empresas e transformar os compromissos financeiros em recursos capazes de chegar aos territórios e às comunidades que realizam, no cotidiano, parte essencial do trabalho de conservação da biodiversidade.