Cidades na linha de frente: o que Rio de Janeiro já aprendeu sobre justiça climática urbana

Existe um Rio de Janeiro que a cidade quase esqueceu que teve. Um Rio onde a Rocinha era quintal, onde se bebia a água do Rio Carioca, onde se pescava no Rio Pavuna. É esse o pano de fundo de “Cidades na Linha de Frente: Justiça, Território e a Transição Climática Urbana”, na Rio Nature and Climate Week, com a arquiteta e urbanista Tainá de Paula, à frente da Secretaria de Meio Ambiente e Clima do Rio entre 2023 e 2026, e Débora Castiglione, Oficial Nacional de Migração, Meio Ambiente, Mudança do Clima e Redução de Riscos de Desastres da OIM, a Agência da ONU para Migrações.
Um orçamento territorializado, e a distância que ainda falta
O Rio foi a primeira cidade brasileira a criar um Orçamento Climático territorializado, mecanismo que direciona recursos públicos conforme a vulnerabilidade de cada região. A distância entre o que existe e o que seria necessário, porém, é enorme: segundo dado do C40, a cidade precisaria de algo em torno de 140 bilhões de reais por ano só para mitigação, e 400 bilhões de reais nos próximos quatro anos para adaptação, uma escala muito distante do orçamento total do município, de 46 bilhões de reais. Diante desse abismo, a estratégia não foi esperar o volume ideal de recursos aparecer, mas escolher, com precisão, onde começar. No caso carioca, esse ponto de partida foi o enfrentamento ao calor extremo, historicamente tratado como parte do imaginário de verão da cidade, não como risco a ser combatido.
Dados que chegam antes da emergência
Desse ponto de partida nasceram os observatórios de calor da cidade, hoje conectados ao Centro de Operações e Resiliência, o Cor, responsável pela capacidade de resposta mais rápida da América Latina, com retorno à normalidade climática em até quatro horas após eventos extremos. O programa Guardiãs das Matas leva agentes porta a porta em lógica semelhante à do agente comunitário de saúde, mapeando febres ligadas ao calor e doenças de veiculação hídrica antes que virem estatística oficial. Em Realengo, bairro que ganhou um parque urbano periférico, os índices de saúde cardiovascular subiram cerca de 35% depois da intervenção.
Justiça climática como indicador, não como ideal
A mobilidade humana forçada por desastres é um campo que a ciência começou a mapear nos anos 1980 e que ainda hoje enfrenta dificuldade de mensuração, sobretudo quando o deslocamento não tem uma causa isolada e visível como uma enchente, mas se soma a fatores como incêndios florestais e estiagem prolongada. Segundo o último relatório do IPCC, Nordeste e Amazônia estão entre as regiões do mundo mais sensíveis à migração climática. Justiça climática só ganha peso real quando sai do campo do ideal e vira algo operacionalizável, com indicadores capazes de medir se ações de adaptação estão de fato reduzindo desigualdades pré-existentes, ou apenas as reproduzindo sob nova roupagem.
O acesso ao verde como medida de desigualdade
Historicamente, o Rio de Janeiro deu as costas à floresta do Parque Estadual da Pedra Branca e ao Parque Nacional da Tijuca. Reverter isso, através de parques urbanos em territórios periféricos como Realengo, Pavuna e Inhaúma, cumpre uma função dupla: ambiental e econômica, já que morar perto de área verde reduz gastos com saúde e amplia qualidade de vida sem depender de renda. Essa escolha já influenciou outras cidades brasileiras a repensar sua própria relação com áreas verdes periféricas.
A crise climática nas cidades não tem uma resposta única, porque as desigualdades que ela expõe também não têm uma origem única. Entre dados, orçamento e parques, o que fica é a tentativa de tratar essa pluralidade como ponto de partida, não como obstáculo.
Assista abaixo à íntegra do Fireside Chat “Cidades na Linha de Frente: Justiça, Território e a Transição Climática Urbana”.
