Ciência e Clima28 de julho de 2026

El Niño: um padrão antigo, um desafio renovado

El Niño: um padrão antigo, um desafio renovado

Pescadores peruanos foram os primeiros a notar, ainda no século dezenove, que em certos anos as águas do Pacífico próximas à costa aqueciam de forma incomum, geralmente por volta do Natal. Batizaram o fenômeno de El Niño, em referência ao Menino Jesus. Levou mais de um século até a ciência climática confirmar que aquela observação local fazia parte de um dos padrões mais influentes do planeta: o ciclo El Niño Oscilação Sul, capaz de alterar temperaturas oceânicas, ventos e regimes de chuva em praticamente todos os continentes. Não se trata de uma anomalia isolada, mas de um evento recorrente, que se repete a cada dois a sete anos e cuja intensidade varia de fraca a excepcionalmente forte.

Os episódios mais intensos já registrados, como os de 1997 e 1998 e o de 2015 e 2016, deixaram um rastro de dados que a ciência hoje usa como referência. Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde, o episódio de 2015 e 2016 afetou mais de sessenta milhões de pessoas, provocou secas severas no Chifre da África, ampliou surtos de malária na Etiópia e de dengue na Indonésia e no Pacífico, e intensificou enchentes na América Central e do Sul. Esses números mostram que o fenômeno, embora tenha origem oceânica localizada, produz consequências sociais e sanitárias distribuídas de forma desigual, atingindo com mais força justamente as regiões com menor capacidade de resposta.

O ciclo atual já está em curso. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, a probabilidade de o fenômeno se estabelecer entre junho e agosto deste ano chegou a oitenta por cento, com chances próximas ou acima de noventa por cento de persistir até novembro. A Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos estima em sessenta e três por cento a probabilidade de o evento atingir intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027, o que colocaria esse ciclo entre os mais expressivos já monitorados desde que o fenômeno passou a ser sistematicamente registrado. Um sinal desse cenário já apareceu em junho, quando uma onda de calor recorde varreu a Europa: em Londres, durante a própria semana dedicada à ação climática da cidade, um painel sobre adaptação ao calor extremo precisou ser cancelado porque o local do evento não tinha ar-condicionado suficiente para as temperaturas do dia.

No Brasil, os efeitos já mobilizam a gestão pública antes mesmo da chegada oficial do verão. No Rio de Janeiro, a Prefeitura antecipou protocolos de calor e de chuva que normalmente entrariam em vigor apenas nos meses mais quentes, reconhecendo que o padrão de temperatura elevada característico do El Niño já se manifesta desde o fim do inverno. Em Porto Alegre, a memória da enchente histórica de 2024, quando o nível do Guaíba atingiu a marca mais alta desde o início das medições em 1873, torna a previsão de chuvas entre cem e cento e cinquenta milímetros acima da média para o segundo semestre de 2026 uma questão de reconstrução ainda em curso, não apenas de prevenção futura.

Esse padrão de impacto desigual se repete em outras partes do Sul Global. No Peru, autoridades decretaram estado de emergência em centenas de distritos diante do risco de chuvas intensas associadas ao mesmo ciclo. Nas Filipinas, especificamente na região de Mindanao, o fenômeno se manifesta de forma inversa, intensificando períodos de seca que ameaçam a segurança hídrica e alimentar de comunidades inteiras, levando organizações locais a distribuir kits de conservação de água e a fortalecer sistemas de alerta antecipado. O mesmo evento climático produz, assim, respostas adaptativas muito distintas, a depender da geografia, da infraestrutura já instalada e da capacidade institucional de cada território.

Essa diversidade de manifestações revela um ponto estrutural importante. O El Niño não cria, sozinho, as vulnerabilidades que expõe. Ele intensifica riscos que já existiam, associados à ocupação urbana desordenada, à fragilidade de sistemas de drenagem, à dependência de chuvas regulares para agricultura de subsistência e à desigualdade no acesso a infraestrutura de proteção. Nesse sentido, o fenômeno funciona como um teste recorrente da capacidade de cada sociedade de antecipar, e não apenas reagir, a eventos que a ciência já consegue prever com meses de antecedência.

Vale notar quem carrega o maior peso desse teste. É justamente o Sul Global, de Lima a Porto Alegre, de Mindanao ao Rio de Janeiro, quem acumula mais experiência prática em conviver com esse fenômeno e menos espaço nas mesas onde as respostas globais a ele são decididas. O conhecimento técnico sobre como antecipar chuvas, secas e ondas de calor muitas vezes já existe dentro dessas comunidades e instituições locais, construído em cada ciclo anterior. Ampliar a voz de quem já testou essas soluções na prática, e não apenas de quem as observa a distância, é condição para que a próxima resposta ao El Niño chegue mais rápido do que a anterior.

O calendário não deixa dúvida: a janela de maior risco já começou e se estende até o início do próximo ano. O que ainda está em aberto é se a resposta, em cada uma dessas geografias, vai chegar a tempo dela, e se quem mais entende desse risco vai finalmente ter lugar na hora de decidir o que fazer com ele.