Natureza e Sociedade28 de julho de 2026

Fortalecer quem já transforma seus territórios

Fortalecer quem já transforma seus territórios

Enquanto grande parte da programação oficial de uma conferência internacional costuma se concentrar em painéis, auditórios e lideranças já consolidadas, a Rio Nature and Climate Week decidiu, desde sua primeira edição, reservar um espaço estrutural diferente para a vertical Grassroots. A proposta partiu de um reconhecimento simples e ao mesmo tempo pouco praticado: soluções concretas para os desafios climáticos e socioambientais já existem, e em muitos casos há décadas, dentro de comunidades periféricas, povos indígenas, quilombos, coletivos culturais e redes de base que raramente ocupam o centro do debate internacional sobre clima. A chamada pública lançada pelo Instituto Natureza e Clima Brasil não criou essas soluções, apenas abriu um caminho institucional para que elas fossem reconhecidas, visibilizadas e apoiadas dentro da programação oficial da semana.

O critério de seleção reflete essa intenção. Entre os perfis explicitamente priorizados estão organizações vinculadas a comunidades periféricas urbanas e periurbanas, povos indígenas, comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais, juventudes, mulheres, população negra e coletivos de favela. Mais do que uma lista de categorias, essa priorização representa uma escolha editorial sobre quem deveria estar autorizado a falar sobre a crise climática a partir de sua própria experiência de território, e não apenas como objeto de estudo ou beneficiário de políticas desenhadas em outro lugar. O processo avaliou protagonismo comunitário, relevância territorial e capacidade de diálogo com as necessidades concretas de cada território como critérios centrais, ao lado de viabilidade técnica e diversidade na composição final do conjunto de propostas.

O resultado apareceu de forma concreta ao longo dos seis dias de programação. Na Zona Norte do Rio, o Observatório das Baixadas lançou a terceira edição do Atlas das Baixadas, plataforma de ciência cidadã periférica dedicada a mapear vulnerabilidades climáticas e racismo ambiental nas favelas brasileiras, em parceria com o Instituto Papo Reto e o Instituto Crias do Tijolinho. Na Maré, a Redes da Maré promoveu uma oficina de cartografia participativa sobre alagamentos e saneamento, enquanto a Data_Labe e a Germinal ATE discutiram diretamente a relação entre ausência de infraestrutura básica e agravamento da crise climática nas periferias urbanas.

A dimensão amazônica da programação também ganhou espaço próprio. O Projeto Saúde e Alegria apresentou tecnologias sociais desenvolvidas por povos indígenas e comunidades tradicionais da Bacia do Rio Tapajós, reunindo lideranças como Auricelia Arapiun, do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns, e Alessandra Munduruku, da Associação Pariri, em um debate sobre adaptação climática construída a partir do território amazônico, e não apenas sobre ele. Já o Coletivo Ofó e a Escola Afro Climática Mãe Beata de Yemanjá conduziram uma Roda do Conhecimento Afroambiental, articulando ancestralidade, espiritualidade e ecologia como tecnologias sociais legítimas para o enfrentamento da crise climática, um enquadramento raramente presente em conferências internacionais sobre o tema.

Juventudes também ocuparam papel central nessa vertical. A Associação de Jovens Engajamundo, a Perifa Lab e a Central Única das Favelas participaram de diálogos sobre trabalho digno e justiça climática que resultaram em uma carta compromisso voltada à incidência política, enquanto o Instituto Águas Resilientes conectou jovens periféricos, negros, indígenas e quilombolas diretamente à Conferência da Água da Organização das Nações Unidas de 2026, elaborando recomendações que seguiram para a UNESCO. Em cada um desses casos, a lógica se repete: a organização de base não é convidada a comentar uma agenda externa, ela constrói a própria pauta e a leva para dentro da programação institucional.

O que esse conjunto de iniciativas demonstra, tomado em bloco, é que fortalecer não significa apenas oferecer apoio pontual a projetos isolados. Significa reconhecer que essas organizações já promovem mudanças concretas em seus territórios, muitas vezes com recursos e visibilidade muito inferiores ao alcance real de seu trabalho, e que ampliar essa capacidade exige mais do que boa vontade institucional. Exige critérios claros de seleção, espaço garantido na programação oficial e disposição de integrar essas experiências à agenda internacional de clima e natureza como conteúdo central, não como apêndice simbólico.

Se conectar significa reconhecer a interdependência entre sistemas naturais e entre agendas globais, e se elevar significa garantir que quem já vive a crise climática tenha lugar nas decisões sobre ela, fortalecer é o passo que transforma esse reconhecimento em capacidade concreta de ação nos territórios. As organizações que passaram pela Rio Nature and Climate Week Grassroots não chegaram até ali para aprender o que fazer. Chegaram para mostrar o que já sabem fazer, e para que essa experiência acumulada finalmente ocupasse o espaço institucional que sempre mereceu.