Fortalecer quem já transforma seus territórios

Enquanto grande parte da programação oficial de uma conferência internacional costuma se concentrar em painéis, auditórios e lideranças já consolidadas, a Rio Nature and Climate Week decidiu, desde sua primeira edição, reservar um espaço estrutural diferente para a vertical Grassroots. A proposta partiu de um reconhecimento simples e ao mesmo tempo pouco praticado: soluções concretas para os desafios climáticos e socioambientais já existem, e em muitos casos há décadas, dentro de comunidades periféricas, povos indígenas, quilombos, coletivos culturais e redes de base que raramente ocupam o centro do debate internacional sobre clima. A chamada pública lançada pelo Instituto Natureza e Clima Brasil não criou essas soluções, apenas abriu um caminho institucional para que elas fossem reconhecidas, visibilizadas e apoiadas dentro da programação oficial da semana.
O critério de seleção reflete essa intenção. Entre os perfis explicitamente priorizados estão organizações vinculadas a comunidades periféricas urbanas e periurbanas, povos indígenas, comunidades quilombolas, povos e comunidades tradicionais, juventudes, mulheres, população negra e coletivos de favela. Mais do que uma lista de categorias, essa priorização representa uma escolha editorial sobre quem deveria estar autorizado a falar sobre a crise climática a partir de sua própria experiência de território, e não apenas como objeto de estudo ou beneficiário de políticas desenhadas em outro lugar. O processo avaliou protagonismo comunitário, relevância territorial e capacidade de diálogo com as necessidades concretas de cada território como critérios centrais, ao lado de viabilidade técnica e diversidade na composição final do conjunto de propostas.
O resultado apareceu de forma concreta ao longo dos seis dias de programação. Na Zona Norte do Rio, o Observatório das Baixadas lançou a terceira edição do Atlas das Baixadas, plataforma de ciência cidadã periférica dedicada a mapear vulnerabilidades climáticas e racismo ambiental nas favelas brasileiras, em parceria com o Instituto Papo Reto e o Instituto Crias do Tijolinho. Na Maré, a Redes da Maré promoveu uma oficina de cartografia participativa sobre alagamentos e saneamento, enquanto a Data_Labe e a Germinal ATE discutiram diretamente a relação entre ausência de infraestrutura básica e agravamento da crise climática nas periferias urbanas.
A dimensão amazônica da programação também ganhou espaço próprio. O Projeto Saúde e Alegria apresentou tecnologias sociais desenvolvidas por povos indígenas e comunidades tradicionais da Bacia do Rio Tapajós, reunindo lideranças como Auricelia Arapiun, do Conselho Indígena Tapajós Arapiuns, e Alessandra Munduruku, da Associação Pariri, em um debate sobre adaptação climática construída a partir do território amazônico, e não apenas sobre ele. Já o Coletivo Ofó e a Escola Afro Climática Mãe Beata de Yemanjá conduziram uma Roda do Conhecimento Afroambiental, articulando ancestralidade, espiritualidade e ecologia como tecnologias sociais legítimas para o enfrentamento da crise climática, um enquadramento raramente presente em conferências internacionais sobre o tema.
Juventudes também ocuparam papel central nessa vertical. A Associação de Jovens Engajamundo, a Perifa Lab e a Central Única das Favelas participaram de diálogos sobre trabalho digno e justiça climática que resultaram em uma carta compromisso voltada à incidência política, enquanto o Instituto Águas Resilientes conectou jovens periféricos, negros, indígenas e quilombolas diretamente à Conferência da Água da Organização das Nações Unidas de 2026, elaborando recomendações que seguiram para a UNESCO. Em cada um desses casos, a lógica se repete: a organização de base não é convidada a comentar uma agenda externa, ela constrói a própria pauta e a leva para dentro da programação institucional.
O que esse conjunto de iniciativas demonstra, tomado em bloco, é que fortalecer não significa apenas oferecer apoio pontual a projetos isolados. Significa reconhecer que essas organizações já promovem mudanças concretas em seus territórios, muitas vezes com recursos e visibilidade muito inferiores ao alcance real de seu trabalho, e que ampliar essa capacidade exige mais do que boa vontade institucional. Exige critérios claros de seleção, espaço garantido na programação oficial e disposição de integrar essas experiências à agenda internacional de clima e natureza como conteúdo central, não como apêndice simbólico.
Se conectar significa reconhecer a interdependência entre sistemas naturais e entre agendas globais, e se elevar significa garantir que quem já vive a crise climática tenha lugar nas decisões sobre ela, fortalecer é o passo que transforma esse reconhecimento em capacidade concreta de ação nos territórios. As organizações que passaram pela Rio Nature and Climate Week Grassroots não chegaram até ali para aprender o que fazer. Chegaram para mostrar o que já sabem fazer, e para que essa experiência acumulada finalmente ocupasse o espaço institucional que sempre mereceu.
