O que a ciência do clima ensina sobre a interdependência

Há mais de 30 anos, o Rio de Janeiro sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, conhecida como Rio-92, um marco que deu origem às convenções internacionais sobre clima, biodiversidade e desertificação. Em 2026, a cidade voltou a reunir a comunidade científica e política internacional na Rio Nature and Climate Week, e coube a Carlos Nobre, climatologista, pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e uma das maiores autoridades mundiais em sistemas terrestres amazônicos, abrir oficialmente a programação de conteúdo. Sua presença não foi apenas simbólica. Nobre integrou o primeiro relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em 1990, e desde então dedica sua carreira a demonstrar algo que a própria escolha do nome da plataforma já sugere: natureza e clima não são agendas paralelas, são sistemas profundamente interconectados.
Essa interdependência aparece de forma concreta quando se observa o comportamento dos biomas brasileiros. Segundo os dados apresentados por Nobre, o avanço da Caatinga sobre o Cerrado já ultrapassa duzentos e trinta mil quilômetros quadrados nas últimas três décadas, um processo de savanização que se intensifica à medida que a vegetação nativa é substituída por monoculturas menos capazes de reter e reciclar água. O Pantanal, por sua vez, depende diretamente da estabilidade hidrológica da Amazônia para manter seus ciclos de cheia e vazante, de modo que alterações no regime de chuvas amazônico se propagam para outros ecossistemas a centenas de quilômetros de distância. Nenhum desses biomas pode ser compreendido, ou protegido, isoladamente.
A ciência climática reforça essa lógica de conexão também na escala planetária. O aumento da temperatura média global, que atingiu pela primeira vez a marca de um grau e meio acima dos níveis pré-industriais entre 2023 e 2025, resulta da combinação entre o desmatamento e o acúmulo de gases de efeito estufa na atmosfera, dois fatores que atuam de forma sinérgica e não isolada. Estudos coordenados por Nobre indicam que, caso o desmatamento na Amazônia ultrapasse a faixa de vinte a vinte e cinco por cento associado a um aquecimento global de dois graus, a floresta pode atravessar um ponto de não retorno, com savanização irreversível de parte significativa do bioma em poucas décadas. O mesmo raciocínio se aplica ao Cerrado, à Caatinga e ao Pantanal, cada um às vésperas de transformações estruturais que a ciência já consegue descrever com razoável precisão.
Diante desse quadro, a resposta mais consistente também precisa ser conectada. O estudo liderado por Nobre e apresentado por cientistas brasileiros mostra que o país tem condições técnicas de zerar suas emissões líquidas até dois mil e quarenta, combinando a transição para energias renováveis, a adoção de práticas agropecuárias regenerativas e a restauração de quatrocentos mil quilômetros quadrados de vegetação nativa distribuídos entre os diferentes biomas. Trata-se de uma agenda que só se sustenta se ciência, política pública, setor produtivo e sociedade civil dialogarem entre si, e não se avanço em uma dessas dimensões continuar dissociado das demais.
É exatamente esse o papel que uma plataforma como a Rio Nature and Climate Week se propõe a cumprir: reunir, num mesmo espaço e ao longo de todo o ano, as vozes que normalmente permanecem em circuitos separados, sejam elas científicas, institucionais, comunitárias ou territoriais. Conectar não é apenas reunir pessoas em um mesmo palco por alguns dias. É reconhecer, como a própria ciência do clima demonstra, que nenhum bioma, nenhum país e nenhum setor consegue enfrentar sozinho uma crise que se manifesta de forma interligada em todas as escalas.
Fica então um convite à reflexão. Se a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e a Caatinga estão, cada um à sua maneira, próximos de limites que a ciência já identificou com clareza, talvez a pergunta mais urgente não seja apenas o que fazer para conter cada crise isoladamente, mas como construir, de fato, as conexões necessárias para que o conhecimento científico, a ação política e a mobilização social deixem de caminhar em paralelo e passem a se reforçar mutuamente.
Estamos dispostos a agir antes que seja tarde demais? Assista abaixo à íntegra da palestra de Carlos Nobre, Emergência Climática: Desafios a Serem Enfrentados.
