O que decide o tamanho de um desastre nem sempre é a força do tremor

Em 10 de agosto de 2026, um terremoto de magnitude 7,4 atingiu o oeste da Colômbia, com epicentro em San José del Palmar, no departamento de Chocó. O impacto humano foi significativo, com milhares de pessoas afetadas e dezenas de edifícios comprometidos em cidades como Cali, Pereira e Manizales.
O terremoto da Colômbia também expõe algo que a geologia sozinha não explica. Em fevereiro de 2010, o Chile foi atingido por um tremor de magnitude 8,8, quase vinte vezes mais energia do que o registrado na Colômbia. Ainda assim, o impacto humano no Chile foi comparativamente muito menor. A diferença entre um desastre de grandes proporções e um evento administrável raramente está na força do abalo em si. Está em quem construiu o quê, com que material, seguindo que norma, fiscalizada por quem.
Especialistas em risco sísmico repetem essa ideia há décadas: o impacto de um terremoto tem menos a ver com sua magnitude e mais a ver com a vulnerabilidade das estruturas atingidas. A forma como uma cidade é construída decide, com antecedência, o tamanho do impacto que um terremoto vai ter, muito antes do primeiro tremor acontecer.
O Chile tem hoje um dos códigos de construção antissísmica mais rígidos do mundo, edifícios preparados para oscilar sem comprometer sua estrutura, e uma população que cresceu convivendo com o risco sísmico como parte da vida cotidiana. Isso não é acidente geográfico, é décadas de investimento público em engenharia e fiscalização. Do outro lado do espectro, cidades como Lima, no Peru, chegam a ter até 80% de suas moradias construídas de forma informal, segundo especialistas locais, sem acompanhamento técnico, sem respeitar tipo de solo, sem seguir norma de resistência estrutural. Um mesmo tremor que mal afeta um prédio chileno pode comprometer seriamente uma casa erguida sem projeto em qualquer outra cidade da América Latina.
Isso não é exclusividade sísmica. É a mesma lógica que qualquer pessoa que trabalha com risco climático já reconhece: a chuva não escolhe onde vai cair, mas a enchente afeta, com uma precisão cruel, os bairros sem drenagem, as encostas sem contenção, as casas erguidas em áreas que deveriam ter ficado livres de ocupação. Terremoto e enchente são fenômenos naturais completamente diferentes, mas produzem o mesmo tipo de desigualdade na hora de contar o impacto: quem tem menos recursos constrói em terreno mais barato, com material mais frágil, sob fiscalização mais frouxa, e enfrenta as piores consequências quando a natureza, seja qual for sua forma, decide se manifestar.
Depois do terremoto de fevereiro de 2023, na Turquia, o governo determinou que todos os hospitais públicos passassem a ser construídos com isolamento sísmico na base, tecnologia que permite ao prédio absorver o movimento do solo sem transmitir o abalo à estrutura inteira. É um exemplo concreto de política pública nascida diretamente de um evento anterior, e do tipo de decisão que separa países que aprendem com o risco de países que continuam enfrentando as mesmas consequências a cada novo evento.
Nenhum código de construção evita um terremoto. Mas o desenvolvimento urbano de uma cidade, a decisão de investir ou não em engenharia, fiscalização e infraestrutura resiliente, é quem decide se um tremor se torna um evento geológico administrável ou um desafio humanitário de grandes proporções. É essa distância, entre o fenômeno natural e a resposta que a sociedade escolhe dar a ele, que continua sendo, a cada novo evento, a pergunta mais importante a se fazer.
Natureza, clima e desenvolvimento raramente aparecem juntos quando o assunto é risco sísmico, mas talvez devessem. A vulnerabilidade que decide o tamanho de um terremoto é a mesma que decide o tamanho de uma enchente ou de uma onda de calor: nasce de escolhas de planejamento tomadas muito antes do fenômeno em si.
