O que o setor privado brasileiro já está fazendo por natureza, clima e desenvolvimento?

Nos últimos anos, cresceu o número de compromissos empresariais ligados a net zero, biodiversidade, cadeias produtivas sustentáveis, economia circular e agricultura regenerativa. A urgência, porém, mudou de lugar: não é mais sobre assumir metas, é sobre sair da promessa e chegar à entrega. Foi esse o pano de fundo de “Empresas Como Força de Implementação: Liderança do Setor Privado para Natureza, Clima e Desenvolvimento”, na Rio Nature and Climate Week, com Ricardo Mussa, da SB COP, Ligia Camargo, diretora de sustentabilidade do Grupo Heineken, e Jessica Silva, do Sistema B Brasil, mediação de Felipe Villela, diretor do The Earthshot Prize.
A SB COP nasceu de um modelo emprestado do G20. Há 17 anos, o B20 reúne o setor privado dos maiores países do mundo antes das negociações do G20, ajudando a subsidiar os negociadores. O Brasil replicou essa lógica para o ciclo das COPs, reunindo associações de indústria e comércio de diferentes países, a CNI representando o Brasil, a US Chamber os Estados Unidos, a Business Europe a Europa, entre outras. Hoje a iniciativa já reúne cerca de 63 países e, somando as empresas representadas por essas associações, mais de 43 milhões de negócios. É uma tentativa de dar ao setor privado uma posição consensada antes de chegar à mesa de negociação, algo que, segundo quem lidera a iniciativa, tem se mostrado mais fácil de alcançar entre empresas do que entre governos.
Um exemplo concreto de como isso se traduz em prática apareceu no relato da parceria entre a Heineken e a Rizoma, empresa de agricultura regenerativa. Em vez de manter arrendadas para pasto e cana terras no entorno de sua fábrica em Itu, uma das maiores do grupo no Brasil, a Heineken optou por desarrendar essas áreas e restaurá-las em modelo agroecológico. Mais de 800 hectares estão em processo de restauração, com capacidade estimada de capturar 500 mil toneladas de carbono até 2040 e regenerar mais de um milhão de metros cúbicos de água na região, justamente onde a fábrica depende desse recurso para operar. A lógica por trás da decisão não foi apenas ambiental: era também de gestão de risco, já que manter a terra arrendada para monoculturas de baixo valor ecológico colocava em risco a segurança hídrica da própria operação industrial.
Essa é, segundo o relato do painel, a diferença entre tratar sustentabilidade como iniciativa satélite e tratá-la como parte da estratégia central do negócio. Projetos que dependem de orçamento à parte tendem a ser os primeiros cortados quando chegam os cortes de custo. Projetos que resolvem um problema real de operação, água, insumo, risco climático, sobrevivem porque deixam de competir com o resultado financeiro e passam a fazer parte dele.
O setor privado movimenta entre 70% e 80% do capital financeiro do mundo. Não existe solução para a emergência climática que não passe, em algum momento, por dinheiro, e é nesse ponto que o argumento do Sistema B se apoia: se o setor privado já concentra essa fração do capital global, ele não pode ser tratado como espectador de uma transição que, estruturalmente, depende dele para acontecer. No Brasil, mais de 300 empresas já têm certificação B, parte de uma rede que reúne mais de 10 mil empresas certificadas no mundo. Um estudo do B Lab, organização por trás da certificação, estimou que, se todas as empresas do mundo adotassem práticas semelhantes às exigidas pela certificação B, mesmo sem se certificar formalmente, seria possível reduzir em meio grau Celsius o aquecimento global projetado, uma fração que, somada a outras, é o tipo de números que decide se o planeta permanece dentro ou fora dos limites que a ciência climática já mapeou.
O país já é reconhecido como potência em produção de alimentos, tendo passado de importador a exportador de bilhões de dólares em poucas décadas. O mesmo paralelo está se repetindo agora no setor de energia: o Brasil começou a acumular excedente de energia renovável, solar e eólica em volume que, em alguns momentos, sequer consegue escoar pela rede, o fenômeno técnico conhecido como curtailment. Historicamente importador de petróleo e de energia elétrica de países vizinhos, o Brasil hoje se encontra numa posição estrutural diferente, com potencial para atrair investimento em transmissão e tecnologia, e para se tornar exportador de biocombustíveis líquidos, do etanol ao combustível sustentável de aviação, justamente os produtos energéticos mais difíceis de descarbonizar em outros países. Segundo a Agência Internacional de Energia, o investimento global em energia renovável já superou o dobro do investido em fontes fósseis em 2025, uma tendência que tem menos a ver com convicção climática e mais com o simples fato de que renovável, hoje, é mais barato.
Nenhuma dessas frentes, energia, água, certificação, representação política do setor produtivo, resolve sozinha a distância entre compromisso e implementação. Mas, juntas, esboçam algo que raramente aparece quando se fala do papel do setor privado na crise climática: não apenas a responsabilidade pelo problema, mas a capacidade concreta, já em curso, de fazer parte da solução em escala.
