Natureza e Sociedade06 de agosto de 2026

Phoenix Species Project

Phoenix Species Project

Phoenix Species Project é a maior aposta filantrópica da história contra a extinção.

Em 2021, o ator Leonardo DiCaprio e o biólogo Wes Sechrest, cofundadores da organização de conservação Re:wild, se sentaram com Jeff Bezos e Lauren Sánchez Bezos, hoje presidente e vice-presidente do Bezos Earth Fund, para uma conversa sobre como reverter, de forma concreta e duradoura, o declínio das espécies mais vulneráveis do planeta. Não houve anúncio, nem pressa. Cinco anos depois, aquela conversa virou o Phoenix Species Project, lançado nesta terça-feira (4/08): um compromisso de duzentos milhões de dólares dedicado exclusivamente à recuperação de cem espécies em risco crítico de extinção, em trinta países.

Segundo o comunicado oficial das duas organizações, trata-se da maior iniciativa filantrópica única da história voltada exclusivamente a esse propósito. Metade dos recursos vem do Bezos Earth Fund, a outra metade da Re:wild, com apoio adicional de DiCaprio, da Age of Union e da Todd Graves Family Foundation.

O projeto chega num momento em que a conservação global enfrenta ventos contrários. Recuos em proteções ambientais se acumulam em diferentes países, metas de biodiversidade já assumidas seguem descumpridas, e empresas revisam compromissos climáticos que pareciam consolidados. Nesse cenário, um financiamento de longo prazo, com escala internacional e especificidade científica, é raro, e por isso mesmo relevante: a maioria dos esforços de conservação de espécies ainda depende de doações pontuais e de curto prazo, insuficientes para dar a uma população em declínio o tempo que ela precisa para se recuperar de verdade.

As cem espécies selecionadas atravessam quase todos os grupos e habitats possíveis, de lêmures em Madagascar a iguanas em ilhas vulcânicas do Pacífico, de salamandras que vivem num único desfiladeiro nos Estados Unidos a uma suculenta sul-africana quase extinta na natureza por causa da própria popularidade como planta ornamental. O critério de seleção não foi apenas o risco de extinção: cada espécie escolhida já tinha organizações locais trabalhando para protegê-la havia anos, muitas vezes com orçamentos muito aquém do necessário. É o caso da sifaca-de-coroa-dourada, lêmure de Madagascar cuja recuperação vinha sendo sustentada, segundo a diretora executiva da Association Fanamby, Tiana Andriamanana, por um orçamento que nunca esteve à altura do que a espécie merecia, mas que nunca deixou a extinção virar opção.

O financiamento vai se distribuir por mais de cem parceiros locais e internacionais, em parceria técnica com a IUCN Species Survival Commission, e vai sustentar estratégias que vão de programas de reprodução em cativeiro a restauração de habitat, passando por manejo de doenças e controle de espécies invasoras. Diferente do modelo tradicional de doações curtas, a aposta aqui é justamente a sustentação: dar tempo suficiente para que populações minúsculas, algumas reduzidas a poucos indivíduos, consigam de fato se reerguer.

Cada espécie exige uma lógica própria de recuperação. A sifaca-de-coroa-dourada vive em florestas de transição que dependem dela para se regenerar: é o lêmure quem carrega sementes de um ponto a outro da mata, e restaurar sua população significa também restaurar a capacidade dessas áreas de estocar carbono. Já o peixe-guitarra-de-boca-de-arco, criticamente ameaçado pela pesca acidental e pela caça por suas nadadeiras, precisa de um processo bem mais controlado: reprodução em cativeiro entre adultos geneticamente compatíveis, filhotes criados até atingirem tamanho suficiente para se alimentar sozinhos na natureza, e monitoramento por marcação depois da soltura, para acompanhar se a reintrodução realmente funcionou.

Wes Sechrest, que lidera a Re:wild como CEO, esteve na Rio Nature and Climate Week no painel “Sistemas Agroalimentares, Seca, Florestas, Água e Oceanos: Implementando Soluções Integradas no Nível Territorial”, ao lado do ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, com mediação de Fábio Scarano, do Museu do Amanhã. A Re:wild é uma das organizações parceiras da RNCW, e essa presença não foi coincidência: o tema daquele painel, soluções territoriais que conectam floresta, água e oceano, é praticamente um resumo antecipado do que o Phoenix Species Project agora coloca em prática. É a mesma lógica de fundo repetida em dois palcos diferentes, o de que proteger uma espécie exige proteger o sistema inteiro ao seu redor, não apenas ela: a recuperação da sifaca-de-coroa-dourada depende da floresta, a do peixe-guitarra depende do oceano, e nenhuma das duas se resolve isolada do território que a sustenta. É esse tipo de sinergia, entre organizações que pensam natureza, clima e território como uma coisa só, que aproxima o lançamento do Phoenix Species Project do trabalho que a própria RNCW se propõe a fazer.

O lançamento, como observou o jornal americano The New York Times, acontece num momento de recuos globais na proteção de espécies e de metas de conservação já assumidas e ainda não cumpridas, o que torna raro um compromisso com essa escala e essa duração.

No vídeo de lançamento do projeto, disponível logo abaixo, uma frase resume o que está em jogo: conservação funciona, o mundo já tem múltiplos exemplos de espécies que se recuperaram, e com os recursos certos, direcionados às comunidades locais que já fazem esse trabalho, toda espécie pode se recuperar. O Phoenix Species Project é, nesse sentido, uma aposta grande num futuro possível: cem chances para o mundo lembrar que a extinção pode ser interrompida.

Site oficial do projeto: phoenixspeciesproject.org

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