Restauração florestal em escala: o que a ciência diz sobre o papel do Brasil no Dia da Árvore

O Brasil assumiu, no âmbito do Acordo de Paris, o compromisso de restaurar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. Passados quase dez anos desde que essa meta foi internalizada pela Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, ainda restam pelo menos 8,75 milhões de hectares a restaurar só em imóveis rurais, de um total de 10 milhões previstos pela última revisão do plano, feita em 2024. O número parece distante, mas ganha contorno mais concreto quando confrontado com outro dado: segundo o Observatório do Código Florestal, existem pelo menos 20 milhões de hectares no país que hoje estão em desacordo com a lei, o que sugere que a área real a restaurar pode ser maior do que a meta oficial reconhece.
O gargalo não é falta de vontade política nem ausência de tecnologia para plantar. É, segundo quem trabalha na ponta da cadeia, falta de mercado. Rafael Marinho Rocha, fundador de um viveiro de mudas nativas na Bahia, resume o problema numa frase direta: não adianta coletar semente e produzir muda se não houver comprador. A Década da Restauração, declarada pela ONU, criou visibilidade internacional para o tema, mas a cadeia produtiva que transforma semente em floresta em pé segue subdimensionada diante da escala que o compromisso brasileiro exige.
Uma resposta recente a esse gargalo veio na forma do projeto Restaura Biomas, lançado neste ano por uma coalizão que reúne o World Resources Institute Brasil, a Conservação Internacional, a The Nature Conservancy e o WWF-Brasil, sob liderança da União pela Restauração, articulação criada durante a COP26. A meta do projeto é recuperar 600 mil hectares em processo efetivo de restauração e levar outros 1,2 milhão de hectares a adotar práticas de manejo sustentável, com impacto estimado de 34 milhões de toneladas de dióxido de carbono evitadas. O desenho do projeto também prevê benefício direto para 150 mil pessoas, com pelo menos 35% das oportunidades de trabalho reservadas a mulheres.
A iniciativa procura avançar em três frentes simultaneamente: projetos piloto que colocam árvore em pé no território, mecanismos de mercado que tentam destravar fluxos financeiros para custear essa restauração, e trabalho de política pública para fortalecer a implementação do Código Florestal já existente. A proposta responde a uma crítica recorrente de que a restauração florestal no Brasil sempre foi tratada como uma sucessão de projetos-piloto isolados, sem escala nem continuidade suficiente para fechar a conta de 12 milhões de hectares até o fim da década.
Restaurar floresta não é apenas replantar árvores onde havia mata. É recompor um sistema inteiro de solo, água e biodiversidade que, uma vez degradado, não volta sozinho no mesmo ritmo em que foi destruído. O Dia da Árvore lembra a diferença entre plantar e restaurar, entre um gesto simbólico e um compromisso que, para ser cumprido, precisa de cadeia produtiva funcionando, financiamento estável e prazo real, não apenas boa intenção.
