Governança e Finanças Ambientais18 de agosto de 2026

Restaurar a terra, restaurar a esperança

Restaurar a terra, restaurar a esperança

Restaurar a terra, restaurar a esperança: o que está em jogo na COP17 da Desertificação.

Há um tipo de vulnerabilidade que raramente aparece nas manchetes até que já seja tarde demais para preveni-la. Entre 2023 e 2024, a Mongólia viveu essa vulnerabilidade na pele: um verão de seca severa seguido de um inverno tão rigoroso que ganhou nome próprio, Dzud, resultou na perda de mais de sete milhões de cabeças de gado, um golpe direto no modo de vida de um país onde as pastagens ocupam cerca de 70% do território nacional e sustentam diretamente um terço da população. É nesse cenário que Ulaanbaatar recebe, de 17 a 28 de agosto, a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, sob o tema “Restaurar a Terra. Restaurar a Esperança.”

A escolha da sede carrega peso simbólico, mas também aritmético. Quase 77% do território mongol já está degradado, um número que, longe de ser exceção, ilustra em escala nacional o que a própria convenção estima para o planeta inteiro: até 40% da superfície terrestre da Terra já perdeu parte de sua capacidade produtiva. A secretária-executiva da UNCCD, Yasmine Fouad, resume o argumento central da conferência numa frase difícil de contestar: a terra é a infraestrutura mais vital que existe, e quando ela falha, a insegurança sobe, seja pela perda de meios de subsistência, pelo deslocamento forçado de populações inteiras, ou pela disputa crescente por recursos que já não bastam para todos.

A COP17 é a primeira das três Conferências das Partes ligadas às Convenções do Rio a acontecer neste ano, precedendo os encontros de outubro, na Armênia, dedicado à biodiversidade, e de novembro, na Turquia, dedicado ao clima. As três convenções nasceram da mesma matriz, a Rio-92, e a COP17 assume, nesse sentido, o papel de abrir um ano inteiro de negociações que, cada uma à sua maneira, tentam responder à mesma pergunta: como transformar décadas de diagnóstico científico em decisão política com consequência prática.

A conferência acontece no mesmo ano em que a Assembleia Geral da ONU declarou o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, proposta apresentada pela própria Mongólia. Pastagens cobrem mais da metade da superfície terrestre do planeta, sustentam diretamente cerca de 500 milhões de pessoas e fornecem um sexto das necessidades nutricionais do mundo, e ainda assim seguem entre os ecossistemas mais negligenciados nas grandes conversas ambientais internacionais. Colocar o pastoreio no centro do debate é reconhecer que uma das formas mais antigas de convivência humana com a terra carrega, dentro de si, parte considerável da resposta que a ciência do clima hoje reivindica com urgência, e é também reconhecer que essa convivência só se sustenta onde existem direitos territoriais claros: comunidades que não têm segurança sobre a própria terra não têm, tampouco, incentivo real para restaurá-la a longo prazo.

Terra, água e solo entram na pauta de Ulaanbaatar como uma única equação. A programação da segunda semana reserva um dia inteiro ao que a convenção chama de nexo terra-água, reconhecendo que não existe restauração de solo sem gestão hídrica que a acompanhe, e outro dia inteiro à saúde do solo e aos sistemas alimentares, com o lançamento de um relatório que argumenta, sem meias palavras, que investir na saúde do solo é decisão de negócio com retorno mensurável. É uma mudança de vocabulário que também é mudança de estratégia: sair do campo da sensibilização e entrar no campo do investimento com retorno mensurável.

Nenhuma dessas ambições avança sem financiamento, e é exatamente aí que a distância entre discurso e execução fica mais evidente. A UNCCD estima que sejam necessários cerca de 355 bilhões de dólares por ano para cumprir os compromissos globais de restauração de terra e resiliência à seca, enquanto o investimento atual gira em torno de 77 bilhões, uma lacuna de 278 bilhões de dólares anuais. É esse abismo que justifica o crescente protagonismo do setor privado dentro da própria estrutura da convenção, através de iniciativas como a Business for Land, que já reúne mais de 9 bilhões de dólares em compromissos cobrindo mais de 210 milhões de hectares, prova de que o capital privado começa, ainda que lentamente, a tratar solo degradado como risco de negócio, não apenas como externalidade ambiental.

Antes mesmo da abertura oficial, a conferência já vinha sendo costurada por um gesto simbólico de mais de seis mil quilômetros: o Silk Road Caravan, jornada que atravessou Turquia, Rússia, Uzbequistão, Cazaquistão, Quirguistão e China reunindo pastores, cientistas e comunidades locais antes de convergir para Ulaanbaatar. Em cada parada, um princípio se repetiu, ainda que sob formas técnicas distintas: comunidades precisam de direitos territoriais reconhecidos e de autoridade real sobre a própria terra, a pressão de pastoreio precisa respeitar limites ecológicos, restauração precisa gerar valor econômico tangível, e mulheres e juventude precisam ter voz nas decisões que afetam o território onde vivem. É o argumento de fundo que sustenta toda a arquitetura técnica da COP17, muito além de um detalhe poético anexado à negociação.

Fica, ao final dessas duas semanas em Ulaanbaatar, uma pergunta que vai acompanhar o restante do ano climático internacional: se a ciência já sabe, com razoável precisão, o tamanho do problema e boa parte das soluções, o que ainda falta é disposição coletiva para financiar, sustentar e escutar quem já convive com a terra degradada há gerações. A Mongólia oferece ao mundo, com essa conferência, mais do que um palco geográfico, oferece um espelho: um país que perdeu sete milhões de animais num único ciclo de seca e inverno extremo agora tenta transformar essa mesma vulnerabilidade em liderança global sobre um tema que, cedo ou tarde, vai bater à porta de praticamente todos os territórios do planeta.