Clima e Natureza09 de setembro de 2026

Sistemas agroalimentares, seca e água: o Brasil pode dobrar a produção sem cortar uma árvore

Sistemas agroalimentares, seca e água: o Brasil pode dobrar a produção sem cortar uma árvore

O Brasil tem hoje 150 milhões de hectares destinados à pecuária, dos quais 60 milhões produzem menos de uma vaca por hectare. Ao mesmo tempo, o país possui cerca de 70 milhões de hectares de agronegócio com alta produtividade. Se as áreas de pecuária de baixo rendimento alcançassem níveis semelhantes de produtividade, o Brasil poderia ampliar significativamente a produção de alimentos, fibras e biocombustíveis sem a necessidade de converter novas áreas de vegetação nativa. O dado foi apresentado por André Lima, secretário extraordinário de controle de desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, durante o painel “Sistemas Agroalimentares, Seca, Florestas, Água e Oceanos”, realizado na Rio Nature and Climate Week, ao lado de Wes Sechrest, CEO da Re:wild, com moderação de Fábio Scarano, curador do Museu do Amanhã.

Ao longo do painel, os participantes destacaram a necessidade de integrar políticas públicas que tradicionalmente são formuladas de maneira separada. A produção agrícola depende da disponibilidade de água para irrigação, a geração de energia depende dos reservatórios hidrelétricos, o abastecimento urbano depende dos recursos hídricos e o planejamento nacional de recursos hídricos precisa considerar as diferentes demandas sobre a água. A falta de articulação entre essas áreas pode comprometer a disponibilidade do recurso para diferentes setores. Wes Sechrest apontou uma fragmentação semelhante na agenda ambiental internacional: as convenções sobre clima, biodiversidade e desertificação foram estruturadas separadamente a partir da Rio-92, o que contribuiu, historicamente, para que a conservação da biodiversidade ocupasse uma posição secundária em relação às discussões climáticas.

André Lima apresentou resultados recentes relacionados à redução do desmatamento na Amazônia. Em 2025, a queda chegou a 50% em escala de bioma, 66% nos 70 municípios que concentravam os maiores índices de desmatamento e 75% na região da BR-319, em comparação com 2022. Entre as medidas adotadas, mecanismos de direcionamento do crédito rural: o Plano Safra reorientou mais de 6 bilhões de reais em crédito que anteriormente financiava atividades associadas ao desmatamento ilegal. O Fundo Amazônia também ampliou seus investimentos, alcançando um crescimento de 400% em relação à média dos 15 anos anteriores. Já o programa União com os Municípios reúne 70 prefeituras, incluindo administrações de diferentes posições políticas, em ações que envolvem regularização fundiária e assistência técnica.

A situação apresenta outros desafios quando a conversão da vegetação ocorre dentro dos limites estabelecidos pela legislação. No Cerrado, existem atualmente cerca de 30 milhões de hectares cuja conversão é permitida pela legislação, área equivalente a aproximadamente 60 anos do desmatamento acumulado na Amazônia. Nesses casos, os órgãos ambientais não podem aplicar as mesmas medidas destinadas às áreas de desmatamento ilegal. André Lima defendeu a criação de mecanismos econômicos capazes de tornar a conservação da vegetação nativa mais vantajosa para os produtores. Cada hectare de vegetação nativa contribui para a manutenção do ciclo hidrológico por meio da evapotranspiração, com cerca de 200 mil litros de água associados às suas mil árvores. Na região do Matopiba, produtores já relatam que a intensificação da produção, inclusive com o uso de irrigação, pode ser economicamente mais atrativa do que a abertura de novas áreas; a irrigação, por exemplo, pode triplicar o rendimento por hectare.

Wes Sechrest acrescentou dados sobre o uso global da terra para a produção de alimentos. Metade de toda a terra arável do planeta é destinada à agricultura e, no Brasil, 83% dessa área está relacionada à produção de alimentos para animais. Seres humanos e animais de criação correspondem a 98% da biomassa de mamíferos do planeta, enquanto os mamíferos silvestres representam apenas 2%. São números que ajudam a dimensionar a pressão exercida pelos sistemas de produção sobre os ecossistemas e a necessidade de ampliar a eficiência das áreas já utilizadas.

André Lima também mencionou o aumento da frequência dos incêndios florestais associado às mudanças climáticas e seus impactos sobre os avanços obtidos na conservação. Wes Sechrest mencionou a recente ampliação da área protegida no Pantanal e os resultados econômicos associados à conservação: o ecoturismo desenvolvido na região já apresenta retorno superior ao que a mesma área poderia gerar por meio da pecuária. Integrar produção agropecuária, conservação da vegetação nativa, segurança hídrica e desenvolvimento econômico segue sendo, segundo os dois painelistas, a única forma real de decidir o que fazer com o território.

Assista abaixo à íntegra do High Level Panel “Sistemas Agroalimentares, Seca, Florestas, Água e Oceanos: Implementando Soluções Integradas no Nível Territorial”.