Um país, dois extremos: o que agosto já revelou sobre o El Niño que ainda nem chegou ao pico.

Na segunda-feira, 10 de agosto, cinco capitais brasileiras bateram, no mesmo dia, seus recordes de temperatura para 2026. Cuiabá chegou a 40,2°C e se tornou a segunda capital do país a ultrapassar os 40 graus neste ano, atrás apenas do Rio de Janeiro, que havia registrado 40,8°C em janeiro. Goiânia, Manaus, Porto Velho e Brasília também superaram suas próprias marcas do ano, e Belo Horizonte igualou a sua. O ponto mais quente do dia, porém, não foi em nenhuma capital: a cidade de Goiás, no interior goiano, marcou 41,4°C.
Um mês que ainda nem tinha começado a esquentar de verdade
O que torna esse dado inquietante não é só a temperatura em si, é o momento em que ela aconteceu. Segundo a Climatempo, o El Niño em curso ainda está em fase de fortalecimento, e só deve atingir sua intensidade máxima na primavera de 2026 e no início do verão seguinte. Ou seja, o recorde do dia 10 de agosto foi registrado meses antes do fenômeno chegar ao seu ponto mais forte, o que reforça a avaliação da própria Climatempo de que o país pode estar diante do início de uma onda de calor mais prolongada nos próximos dias.
A previsão para o mês inteiro confirma essa tendência. A temperatura média deve ficar acima do normal em praticamente todo o Brasil, com destaque para o calor mais intenso em Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, oeste de Minas Gerais e da Bahia, sertão do Nordeste e Tocantins. No Sudeste e no Centro-Oeste, a umidade relativa do ar deve cair abaixo de 20% em vários dias, nível associado a desconforto respiratório e aumento do risco de incêndios florestais e queimadas.
O mesmo fenômeno, dois comportamentos opostos
Enquanto o centro do país seca e esquenta, o Sul do Brasil vive o cenário inverso. A previsão de agosto aponta chuva acima da média em toda a região, com risco de temporais, ventania e granizo, especialmente sobre o Rio Grande do Sul, estado que já enfrentou enchentes em julho deste ano por conta do mesmo ciclo climático. Não é uma contradição, é a assinatura característica do El Niño: o mesmo aquecimento anômalo do Pacífico que resseca o Centro-Norte do Brasil intensifica a formação de chuva e instabilidade atmosférica no Sul.
Esse padrão, aliás, já havia se manifestado antes. O excesso de chuva que atingiu o Rio Grande do Sul em julho foi, segundo a própria Climatempo, o primeiro impacto direto do El Niño no clima brasileiro em 2026. Agosto confirma que esse comportamento duplo veio para ficar ao longo dos próximos meses, não foi um episódio isolado.
O que ainda está por vir
Se o país já registra recordes de calor e eventos extremos de chuva num momento em que o El Niño ainda está em fase de fortalecimento, a pergunta que fica não é mais se o fenômeno vai intensificar esses extremos, mas até que ponto. A Organização Meteorológica Mundial estima chances superiores a 80% de o fenômeno se estabelecer com força entre junho e agosto, persistindo até novembro, e a NOAA aponta 63% de probabilidade de o evento atingir intensidade muito forte entre o fim de 2026 e o início de 2027. Isso posicionaria o ciclo atual entre os mais expressivos já registrados desde que o fenômeno passou a ser sistematicamente monitorado.
Duas frentes frias devem passar pelo país ao longo de agosto, uma na primeira semana, outra no fim do mês, trazendo alívio pontual e temporário para parte do Centro-Sul. Mas o alívio, segundo as próprias previsões, não deve durar. O Brasil está, neste momento, testando sua capacidade de resposta a um fenômeno que a ciência já consegue prever com meses de antecedência, mas cuja intensidade real só vai se revelar por completo quando o pico, ainda à frente, finalmente chegar.
